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Je ne suis pas Charlie!



Por Genaldo de Melo
 WANG ZHAO: People holding banners reading
O desejo de violência como resposta por qualquer tipo de indignação na sociedade tem caráter abominável e deveria ser extirpada da natureza humana. Violência não resolve nenhum tipo de problema, principalmente de natureza ideológica ou religiosa. A história como prova dos nove tem comprovado isso em diversos momentos, pois de forma trágica sempre acabou todos os contrapontos ideológicos baseados na mesma. 

A humilhação religiosa e ideológica em suas mais variadas formas de expressão tem resultados negativos, comprovados em toda a história da humanidade. E da mesma forma ela deveria também ser extirpada das vontades irresponsáveis de alguns que acham que podem vilipendiar símbolos de culturas diferentes. Com isso se incita a violência dos fanáticos, que sempre termina em fatos trágicos.

Exprimir uma ideia não é humilhar uma cultura, porque apesar das mentes sadias em todas as culturas existem fanáticos capazes de morrer pelo que acham que deve ser a vida de todos, pautados nos seus valores religiosos e culturais. Não conheço ninguém que depois de humilhado, mesmo hermeticamente não procurou vingança. Mas a pior vingança, exatamente essa que poderia jamais acontecer é com o assassínio de seres humanos. 

Em relação ao massacre da Charlie Hebdo erraram os dois lados. Quem escolheu ideologicamente humilhar uma cultura religiosa, chegando ao ponto de desrespeitar valores muçulmanos, como desenhar Maomé no deserto, Maomé beijando um chargista da Charlie Hebdo, ou mesmo desenhando um quadro com um indivíduo com o Corão recebendo balas, e dizendo que o livro sagrado dos muçulmanos é merda, errou feio, porque provocou a ira de loucos. Erraram mais feio ainda os irmãos Chérif e Said Kouachi assassinando os jornalistas da revista Charlie Hebdo, transformando-se em bárbaros em vez de seres civilizados e do diálogo.

Ninguém tem o direito de dizer que essa matança em resposta as humilhações da Revista é obra da Religião Islâmica, pois o massacre parece que foi obra de fanáticos, e não há como explicar mais porque eles também já estão mortos. Mas o Ocidente vem construindo através de sua mídia, e todo mundo sabe que é por causa das grandes reservas de petróleo da região aonde predomina os valores muçulmanos, que tudo de ruim que acontece no mundo é culpa dos árabes. Eles que são um quarto da população da terra são considerados principalmente pelos americanos, alemães e franceses, seres inferiores e terroristas bárbaros, quando se sabe perfeitamente sem resistência à raciocínio que terroristas são alguns poucos fanáticos que não aguentam as humilhações públicas das "raças superiores" que querem o petróleo do Oriente Médio a qualquer custo.

Imaginem se tivessem também cristãos católicos fanáticos na condição que os muçulmanos na França vivem (10% da população) vendo sua religião ser vilipendiada, principalmente por questões econômicas. Imaginem ver o maior símbolo da Igreja Católica ser vilipendiado numa charge da Revista que se diz “Irresponsável”, a Santíssima Trindade em cenas sexuais. Somente para Lembrar que em julho de 2011 um fanático religioso fundamentalista cristão matou 76 jovens num acampamento em Oslo, na Noruega. Lembrem também que em passado recente houve no Brasil um rebuliço muito grande quando um pastor evangélico chutou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Ainda bem que no Brasil não existem católicos fanáticos a ponto de reagirem com violência!

Depois de “dialogar” com praticamente todos analistas e articulistas do mundo Ocidental sobre o que aconteceu na redação da Revista Charlie Hebdo, em Paris, observando naturalmente as opiniões de ambos os lados da história e sem analisar apenas pelos olhos de quem criou o Movimento “Je suis Charlie”, ou seja, depois de analisar de fato quem conhece o mundo árabe e a disputa política pela maior riqueza dos últimos cem anos, bem como com quem conhece a França  aonde os muçulmanos vivem nos guetos das cidades francesas, chego a conclusão que ambos os lados cometeram erros crassos para o futuro recente.

Charb (Stéphane Charbonnier), diretor da revista Charlie Hebdo, que morreu nesse massacre inaceitável, sempre atacou todas as religiões do mundo com suas charges. Mas nos últimos tempos escolheu apenas o Islâ como foco de seu discurso satírico através de seus desenhos. Ninguém me venha prá cá dizer que em suas charges não havia discurso ideológico! Os desenhos da Revista ratificavam o discurso da Frente Nacional, partido de natureza fascista, coordenado por Jean Marie Le Pen, que está na frente em todas as pesquisas para o próximo embate eleitoral para presidente da França. Em seus discursos a sua bandeira política é radicalizar e mandar de volta todos os muçulmanos que foram para a França das antigas colônias ocupadas pela mesma no passado. Ideologicamente a Revista fazia o discurso político de Le Pen. Se ela ganhar as eleições haverá muito rebuliço na Europa para os Estados Unidos venderem suas armas.

Do lado dos autores do massacre inaceitável, os irmãos de origem argelina Chérif e Said Kouachi, foi o ato mais escabroso dos últimos tempos praticado por fanáticos muçulmanos. A matança parece que foi programada, mas sem medir as conseqüências do ato em si. Parece que escolherem a dedo as suas vítimas para chocar o mundo e de fato aterrorizar a Europa. Primeiro o ato em si é abominável, pois não se pode matar ninguém em nome de suas crenças ideológicas e religiosas. Segundo e não menos grave que eles criaram as condições políticas para que os seguidores de Maomé sejam mais perseguidos ainda na França e em toda a Europa. E ainda mais, a atitude imbecil dos mesmos deu o discurso que o Partido Frente Nacional, de natureza fascista, precisava para investir na vitória eleitoral no próximo sufrágio para escolha do próximo representante máximo da França. Se Le Pen Ganhar as eleições muito da culpa estará colocada na alma desses beócios que quiseram ser mártires sem consultar seu próprio povo e sua religião, que defendem a todo o custo a paz mundial, pois são cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos no mundo e 10% da população francesa.

Portanto como nunca concordei, não concordo e jamais concordarei com violência nenhuma, e sabendo que esse Movimento em defesa dos jornalistas mortos desencadeará mais violência na Europa e no mundo, principalmente quando se convence mais de 700 mil pessoas para irem às ruas de París, com a presença inclusive do líder israelense Benjamin Netanyahu, que ordenou a morte de 2,2 mil palestinos e 17 jornalistas na Faixa de Gaza o ano passado “Je ne suis pas Charlie”!

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