Pular para o conteúdo principal

CPI ou não CPI? A cada escolha o seu preço

Por Saul Leblon, Blog das frases

A mídia demotucana destacou batalhões para escarafunchar possíveis vínculos entre a construtora Delta (mostrada como uma espécie de caixa de compensação do esquema Cachoeira), obras do PAC e eventuais doações a políticos e campanhas do PT. A investigação é legítima. Mas a ênfase exclusiva denuncia a intenção do dispositivo midiático conservador. Trata-se de acuar o governo Dilma com uma barragem de denúncias, suspeição e incerteza e, ao mesmo tempo, produzir um efeito atordoante na opinião pública.

O bombardeio diário, articulado e complementar tece a narrativa de um folhetim. Manejado por autores experientes na arte de ocultar e confundir o público, desta vez persegue um objetivo hercúleo: ofuscar o consórcio de carne e osso que liga o esquema Cachoeira à oposição mas, sobretudo, eclipsar a preciosa singularidade deste caso --o papel explícito do braço midiático como lubrificante na engrenagem criminosa; mediador sem o qual a ação dos interesses que fazem faz gato e sapato da democracia brasileira não vingaria.
A contundência da autodefesa estampada nos jornais empresta veracidade a rumores. Além da revista Veja e da editora Abril, entaladas até o pescoço nas águas da cachoeira, conforme evidências vazadas das escutas policiais, circulam nas redações outros nomes de prestígio do jornalismo que estariam engolfados até o nariz na lama revolvida pela PF. Interessaria a esses supostos personagens --e ao círculo endogâmico que tombaria ao seu redor-- a operação de guerra em curso para cauterizar todos os elos e ramificações fatais do caso. Assim está sendo feito.

O senador Demóstenes Torres --um arquivo incômodo e transbordante-- e o seu ex-partido , o Demo, escafederam-se do noticiário. Depois de um primeiro capítulo de intensa exposição tornaram-se atores cada vez mais coadjuvantes do empastelamento narrativo.

O governador tucano Marconi Perillo, que teria cedido cargos e o próprio Palácio das Esmeraldas à logística dos negócios encachoeirados , foi abduzido pela neblina da 'normalização'. Impressiona sobretudo o desinteresse midiático em investigar um personagem ao mesmo tempo vulnerável e estratégico: a ex-chefe de gabinete de Perillo evaporada igualmente da trama, após fulgurante aparição. Eliane Gonçalves Pinheiro, como se sabe, exonerou-se premida pelas revelações da Polícia Federal segundo as quais, entre um despacho e outro com o governador do PSDB, desempenhava o papel de elo telefônico entre parceiros e aliados do contraventor Carlinhos Cachoeira.

Não menos intrigante é o chá de sumiço servido a José Serra pela mídia obsequiosa. A assessoria do ex-governador não tem divulgado sequer sua agenda de campanha em SP e os jornalistas amigos, naturalmente, não contrariam nem arguem o cordão sanitário. A cumplicidade destoa do estrito interesse jornalístico esbanjado em outras frentes. É sabido que um dos vertedouros legais do esquema Cachoeira remete ao milionário negócio dos remédios genéricos.

A empresa Vitapan, registrada em nome da ex-esposa do bicheiro, Andréa Aprígio de Souza, é ativa nesse mercado. Demóstenes Torres tinha entre os seus afazeres interceder junto à Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em benefício da Vitapan, com sede no polo industrial de Anápolis (GO), a 60 kms de Brasília .

A Vitapan nasceu em 1977 no Rio de Janeiro; foi transferida para Anápolis, nos anos 90 e adquirida por Cachoeira, quando deu um salto de faturamento na esteira da Lei dos Genéricos, de 1999. Serra era o ministro da Saúde de 1998 a 2002, tendo deixado o cargo para enfrentar Lula e por ele ser derrotado na campanha de 2002. Marconi Perillo então era o candidato tucano à reeleição em Goiás; Demóstenes, já ligado a Cachoeira, o seu Secretário de Segurança. A dinâmica Anápolis, sede da Vitapan, teria muito a revelar sobre essas e outras complementariedades, não fosse a cuidadosa desatenção das pautas que mantém a cidade longe do escândalo.

O atual secretário Estadual de Indústria e Comércio de Goiás,o tucano Alexandre Baldy, é empresário em Anápolis. Possível candidato a prefeito da cidade pelo PSDB, Baldy é casado com a irmã de Marcelo Limírio Filho, sócio da ex-esposa de Cachoeira e de Demóstenes em diversos negócios. A ex-sogra do bicheiro, Gabriela Campos de Sousa, ocupa a subsecretária de Educação em Anápolis. Além de Andréa, Gabriela é mãe de Adriano Aprígio de Sousa, preso pela PF e apontado na cidade como um dos mais importantes auxiliares de Cachoeira.

Haveria na memória de Anápolis, ainda, registros de um famoso encontro entre Cachoeira e um grão-tucano, no próprio aeroporto local, quando assuntos de interesse da Vitapan e dos genéricos teriam salpicado a conversa.

A operação abafa desencadeada pela mídia deixa ao governo e ao PT duas opções: ceder à chantagem, abortar a CPI e resignar-se ao papel de refém permanente desse condomínio histórico; ou assumir seu quinhão de perdas e danos para, finalmente, escancarar a face oculta desse Brasil que não sai nos jornais. E do qual certos veículos e profissionais são um componente indissociável. A ver.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A FRAQUEZA E AS DOENÇAS DE UM LÍDER PEQUENO

Por Genaldo de Melo O líder político deve ser sempre o mais forte, moral e espiritualmente, do grupo que lidera, ou pelo menos parecer ser. Fraqueza é a premissa mais incoerente que existe na natureza de quem  deseja liderar politicamente um povo. Apenas no extremismo político a fraqueza pode ser considerada coisa boa, porque um fanático não enxerga tal coisa como negativa. Apenas os apedeutas do extremismo são verdadeiros analfabetos políticos. Como compreender o ex-presidente que sempre arrotou valentia, vomitava intolerância, violência e ódio continuar com tantos seguidores demonstrando fraqueza e se vitimizando o tempo todo quando a coisa aperta para ele? Não o considero líder de nada, apenas de oligofrênicos! O homem foi condenado a ficar fechado na cadeia a mais de vinte sete anos por crimes que evidentemente cometeu, conforme o Código Penal e a Constituição Federal, e fica todo dia inventando coisas para voltar para casa para voltar a encrencar e infernizar a vida do povo br...

LITERATURA

 

A VERGONHA DE FEIRA DE SANTANA SÃO IDIOTAS SEREM VEREADORES

Por Genaldo de Melo É uma vergonha que um município do tamanho de Feira de Santana, maior que nove capitais brasileiras, tenha alguns vereadores que sem estudar, ou por mau-caratismo mesmo, em vez de se preocupar com coisa mais importante para nosso povo, vão para a Câmara de Vereadores falar mal de Lula, porque ele recebeu o presidente da Venezuela, agredindo verbalmente este como ditador. Deveriam estudar um pouco sobre comércio internacional e geopolítica para pelo menos não falar bobagens e compreender que a Venezuela está na situação que está, porque o xerifão do mundo não deixa ninguém comprar petróleo e ouro da mesma, porque querem, porque querem na tora, toda riqueza daquele país, que não aceita ser dominado. Ou burrice ou mau-caratismo, somente fazem vergonha àquela parcela da população que não tem resistência à raciocínio e ler um pouco sobre o que deve ser lido, em vez de confundir religião com política. Burrice tem limites, mas infelizmente ainda têm alguns papagaios ...