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Cúpula das Américas: já vai tarde!

Editorial de Vermelho

A 6ª Cúpula das Américas, encerrada ontem (15) em Cartagena, Colômbia, é mais um sinal do persistente declínio da influência norte-americana na América Latina. A divergência entre os países da continente, de um lado, e os EUA e Canadá, de outro, impediu que houvesse sequer uma declaração conjunta ao final do encontro que reuniu chefes de estado de 35 nações do continente.

Foi um final anunciado. Já se sabia da resistência dos países do continente contra a intransigência dos EUA e do Canadá em relação a Cuba e a presidente Dilma Rousseff, na semana anterior, havia alertado diretamente ao presidente Barack Obama de que esta seria a última Cúpula das Américas sem a presença de Cuba.

Outra questão que une os países do continente contra os EUA é o reconhecimento da soberania argentina sobre as ilhas Malvinas, que não é partilhado pelo governo de Washington.

A Cúpula das Américas foi criada para ser um instrumento da política dos EUA no continente. Sua primeira edição, em 1994 (quando Bill Clinton era o presidente norte-americano) teve o objetivo claro de impulsionar a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas); na terceira edição, em 2001, com a voz de Washington ainda trovejante, o tema foi a aprovação da chamada Carta Democrática Interamericana para impor aos países latino-americanos os critérios julgados necessários pelo governo dos EUA para o convívio entre as nações da região.

Mas 2001 foi o último ano do quase irrestrito predomínio dos EUA sobre o continente. A resistência antineoliberal, que já tinha um marco na Venezuela desde a eleição de Hugo Chávez em 1998, cresceu ainda mais desde a eleição de Luís Inácio Lula da Silva, em 2002. Não demorou para começar a inflexão continental contra as imposições dos EUA, cuja profundidade pode ser vista na Cúpula seguinte, em 2005, que sepultou as pretensões norte-americanas de uma virtual anexação do continente através da Alca: ela deixou de existir na reunião daquele ano, realizada em Mar del Plata, na Argentina, principalmente em consequência da ação da diplomacia brasileira.

Desde então cresceu a integração continental e a articulação dos países latino-americanos à margem da presença e das imposições dos EUA. Foram criadas, nestes últimos dez anos, as instituições que cristalizam essa integração e o fortalecimento da soberania das nações latino-americanas ante o imperialismo norte-americano. O Mercosul (1985) foi fortalecido; surgiram a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e o Conselho de Defesa Sul-Americano (2008) e, depois, a Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos, em 2011). Todas sem a presença dos americanos do norte – EUA e Canadá.

O caminho da independência e da soberania se consolidou nestes anos, acentuando a obsolescência da Cúpula das Américas. Há quem preveja seu fim; ela já vai tarde! Sua próxima reunião está marcada para 2015 no Panamá, mas há fortes dúvidas de que poderá ocorrer devido ao tamanho das divergências entre os EUA e o resto do continente.

Há dois caminhos pela frente: ou os EUA acatam a decisão de quase todos os 33 países do hemisfério e aceitam incluir Cuba e ao menos debater a soberania argentina sobre as Malvinas, ou a próxima reunião dificilmente ocorrerá. Qualquer que seja o resultado deste embate, uma coisa é certa e pode ser comemorada: a voz que vem de Washington já não tem, entre os países abaixo do Rio Grande, a força impositiva que teve no passado.

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