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Argentina: o terror mais brutal

Por Emir Sader
O golpe argentino – que hoje completa 36 anos – foi o mais brutal, assim como a ditadura que instalou, de todos os que viveram a região. Fechou o cerco dos regimes de terror que assolou o Cone Sul do continente, em quatro dos países onde o campo popular era mais forte e ameaçava mais a dominação das elites tradicionais e do imperialismo sobre a América Latina.

A Argentina tinha sofrido um golpe similar ao brasileiro, em 1966, que deveria realizar programa paralelo ao da ditadura brasileira. Mas a resistência popular impediu e as elites argentinas tiveram que promover uma transição à democracia, depois que o golpe fracassou.

Veio a eleição de Perón, em 1973, na contramão do que acontecia na região – do golpe de 1964 no Brasil, aos golpes desse mesmo ano no Uruguai e no Chile. O período histórico tinha mudado, Perón ja não teria investimentos externos da Europa, o pais languidesceu até o novo golpe, o de 1976, desta vez mais selvagem que os anteriores – de 1955 e 1966.

Videla e a alta oficialidade argentina receberam os balanços que lhes mandavam os militares golpistas do Brasil e do Chile. O uso brutal da tortura (contribuição brasileira com o pau-de-arara como tecnologia inovadora), evitar o Estadio Nacional, como mandou dizer Pinochet, para contornar campanhas internacionais pela libertação de presos. Tornar assim sistemático o fuzilamento e o desaparecimento dos corpos.

Isso a ditadura argentina fez com esmero. À maior força da luta popular, mais repressão. 30 mil mortos e desaparecidos, massacres, fuzilamentos, torturas – foi a síntese mais avançada dos regimes de terror da região. Com requintes de crimes de lesa humanidade, inéditos: como o sequestro dos filhos dos presos e fuzilados pela ditadura, crianças entregues a outras famílias, via de regra de militares, para adoção.

Como a ditadura de 1966 tinha fracassado, a de 1976 enfrentou a recessão mundial, levando a Argentina a um profundo retrocesso econômico, promovendo a hegemônica do capital financeiro, pelas desregulamentações que promoveu. Começou mais tarde que as outras, mas não sobreviveu além do fim dos seus congêneres. Demorou menos no poder, mas assassinou muito mais – como  atesta a lista de suas vítimas no Parque da Memória, em que se concentram uma quantidade impressionante de mortes nos anos 1975, 76 e 77.

A ditadura foi sucedida pela democratização nos anos 80, pela crise da dívida e pelo neoliberalismo. Mas a luta da Mães da Praça de Maio e do povo argentino permitiu que a anistia promulgada pela ditadura fosse superada e os argentinos tem, pelo menos, o consolo de ver a Videla e a vários dos seus colegas cumprindo penas em presídios comuns, via de regra de prisão perpétua.

Nada que permita ressarcir todo os danos e sofrimentos impostos ao país e ao povo. Mas pelo menos a justiça tem sido cumprida, para que nunca mais se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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