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Uma pausa para o luto

O irmão mais moço, Jaime, de Gabriel Garcia Marquez (84 anos) confirma: o escritor está perdendo a memória, e não consegue mais escrever. É uma perda imensurável, para a literatura e para o jornalismo. Como se isso não bastasse, no fim de semana que passou morreu, aos 95 anos, Ernest Borgnine.

As notícias correm céleres: o presidente Mohamed Morsi desafia o Conselho Supremo das Forças Armadas no Cairo e manda reabrir o Parlamento fechado dias atrás. Mais adiante a situação na Síria continua se atolando mais e mais numa guerra civil sangrenta e patrocinada em todos os lados por interesses ambíguos, para dizer o mínimo, indo da Arábia Saudita à Al-Qaeda, do mesmo lado (!), e a Rússia e o Irã, do outro. Assange continua confinado na Embaixada do Equador em Londres. Em Assunção a Frente Guazú tem um novo líder, que pode substituir Lugo na presidência daquele país, se os golpistas não interferirem antes: Mario Ferreiro, que se apresenta como “um homem comum com idéias de esquerda”, ex-apresentador de TV.

Mas por ora façamos também uma pausa para o luto.

Ou melhor, dois lutos.

1) O irmão mais moço, Jaime, de Gabriel Garcia Marquez (84 anos) confirma: o escritor está perdendo a memória, e não consegue mais escrever. É uma perda imensurável, para a literatura e para o jornalismo. Garcia Marquez, que ganhou o prêmio Nobel, deixou sua marca indelével na cultura mundial com livros como “Cem anos de solidão”, de 1967, que teve excelente tradução para o português do Brasil, por Eliane Zagury, logo em seguida.

Houve mais: “Ninguém escreve ao coronel”, “Memória de minhas putas tristes” (último romance), “O amor nos tempos do cólera”, “O outono do patriarca”, “Crônica de uma morte anunciada”, e muito ainda. Criador da cidade fantástica e imaginária Macondo (ele revelou certa vez que uma das suas fontes inspiradoras para a criação dessa cidade foi a também imaginária Santa Fé, de “O tempo e o vento”, de Erico Verissimo, a literatura de Garcia Marquez, além de ser de altíssima qualidade, ajudou gerações de latino-americanos que mergulhavam nas sombrias ditaduras dos anos 60 e 70 a reencontrarem alguma forma de esperança. E tão importante quanto sua literatura ficcional, foi seu empenho jornalístico, cobrindo a América Latina, os Estados Unidos, chegando até o Vietnã ainda fumegante da guerra com os Estados Unidos. Que Gabo, como é conhecido entre os amigos, permaneça em paz neste que parece ser o portal de seu último empenho pela vida.

2) Como se isso não bastasse, no fim de semana que passou morreu um de meus ídolos cinematográficos, aos 95 anos: Ernest Borgnine. Filho de imigrantes italianos, Borgnine marcou o cinema com suas interpretações de homens durões, às vezes de maus bofes, como aquele sargento James “Fatso” Judson, de “A um passo da eternidade” (1953), filme de Fred Zinneman que imortalizou o beijo na praia de Burt Lancaster e Deborah Kerr, considerado avançadíssimo para a época, que hoje deve parecer um jogo infantil para as novas gerações. Outras vezes seus “durões” eram simpáticos, embora “sin perder la dureza jamás”, como o Dutch de “Meu ódio será tua herança”, tradução absurda para “The Wild Bunch” (1969), de Sam Peckinpah, o cineasta meio índio que viveu muitos anos no México. Borgnine desempenhou papéis importantes em muitos outros filmes, clássicos ou não, como “Vera Cruz”, “Os vikings” (onde fez o papel do rei Ragnar, beberrão, incontido, corajoso e violento), “Johnny Guitar” (estrelado por Joan Crawford), “Os doze condenados”, e outros e outros mais.

Mas ele ganhou o Oscar de melhor ator com um filme romântico, Marty, de 1955, dirigido por Delbert Mann (que também dirigiria o excelente “The outsider”, de 1961, sobre a vida do soldado Ira Hayes, um dos seis que figuram na célebre foto dos militares norte-americanos erguendo a bandeira em Iwo Jima). Em “Marty” Borgnine desempenha o papel de um solteirão – de apenas 34 anos, mas isso, na época, era um solteirão – que descobre o amor da sua vida mas tem de enfrentar a oposição dos familiares que temem que, se ele se casar, sua mãe fique sozinha – ou tenha que ir morar com eles, ao invés de com ele.

Maçom, Borgnine criticava os políticos norte-americanos, dizendo que eles eram eleitos para representar o povo mas passavam a representar quem lhes financiava as campanhas e os lobbystas de plantão.

Uma grande perda para o cinema.

* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

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