Pular para o conteúdo principal

A participação da audiência e a crise do jornalismo

Por Fábio Henrique Pereira - Observatório de Imprensa

Em abril de 2006, a revista The Economist apresentou uma radiografia das novas mídias e do que ela chamou de “era da participação”. De acordo com a reportagem, as tecnologias digitais teriam embaraçado as fronteiras entre audiências e criadores, permitindo a multiplicação da produção de conteúdo em diferentes escalas.

O discurso sobre a emancipação do público reaparece em diversas ocasiões. Por exemplo, em dezembro de 2010, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) publicou, na capa do seu jornal bimensal, a manchete “É preciso conhecer melhor o leitor”. A reportagem descrevia experiências feitas por jornais no Brasil e em outros países com o objetivo de atrair leitores mais jovens para o consumo de jornais.

Meses depois, em junho de 2011, o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, em uma palestra realizada na Universidade de Brasília e publicada neste Observatório, classificou a blogosfera como o “grilo falante da imprensa brasileira” em referência à capacidade da sociedade de intervir no conteúdo dos veículos tradicionais em situações em que cobertura é equivocada ou incompleta.

Os exemplos ilustram um debate que percorre os meios acadêmico, profissional e empresarial em torno das mudanças na relação entre jornalistas e públicos. Tal cenário se fundamenta na ideia de uma cultura digital, baseada no agenciamento ativo de informações por usuários detentores de intencionalidade e subjetividade. Esse novo modo de produzir conteúdo, típico da internet, estaria agora sendo apropriado pelas mídias tradicionais, preocupadas com a perda da audiência, sobretudo entre os mais jovens.

Parte dessa mudança é resultado da popularização de dispositivos tecnológicos capazes de produzir conteúdo de forma simples e com baixo custo. A utilização de celulares, câmeras fotográficas digitais e laptops, associada ao acesso a internet criaria um cenário favorável a variadas formas de participação do público. As novas plataformas digitais teriam permitido intensificar a interatividade como parte do processo de produção jornalística por meio do envio e publicação de vídeos, fotos e áudio.

As empresas correm atrás

Com medo de perder audiência, as empresas de comunicação criam iniciativas para aproveitar, mesmo que de forma controlada, a produção de conteúdo fora das redações. A percepção é de que o público (jovem) dedica cada vez mais do seu tempo à produção e o consumo de conteúdo on-line. Por isso, a sobrevivência das empresas tradicionais de comunicação estaria diretamente ligada à capacidade de promover espaços de participação da audiência no jornalismo.

Essa mudança aparece na incorporação de ferramentas de interação em plataformas web (espaços de comentários, fóruns e bate-papos etc.) e na utilização – em diferentes níveis – de redes sociais para se comunicar com o público. Também afeta a produção do conteúdo jornalístico. Por exemplo: até há cerca de dez anos atrás, a utilização de imagens de cinegrafistas amadores era algo raro em emissoras de TV e se justificava apenas em circunstâncias excepcionais. Hoje, em um momento em que vídeo publicados no YouTube são vistos por milhares de pessoas, proliferam-se na televisão aberta quadros feitos exclusivamente a partir da produção amadora.

Em uma pesquisa sobre o DF-TV, telejornal veiculado pela Rede Globo em Brasília, a aluna de Publicidade de Universidade de Brasília Angélica Fonsêca analisou as modalidades de participação do público na produção dos quadros “Você no DF-TV” e “Redação Móvel”. O primeiro surgiu com o intuito de receber denúncias do cidadão em formato de texto, vídeo e imagens e divulgá-las no noticiário. O segundo, como uma forma de aproximar a emissora da sua audiência, mostrando os problemas enfrentados pelos moradores das cidades satélites do Distrito Federal. Segundo Fonsêca, a criação desses quadros impactou diretamente no trabalho dos jornalistas. Eles tiveram de redefinir suas rotinas para lidar com o material produzido pelo telespectador, que “não tem o compromisso ético que os profissionais devem ter com a notícia e, consequentemente, a redação terá que apurar e verificar a veracidade da informação”.

Mais recentemente, dois novos quadros foram criados com o objetivo de promover a participação da audiência na produção do noticiário local: “Parceiros do DF”, com reportagens produzidas por jovens e que mostram o cotidiano de algumas regiões do Distrito Federal; e, “Sem noção”, que veicula vídeos de denúncias enviados por telespectadores.

Tais exemplos denotam o posicionamento da empresa jornalística em suas relações com a audiência. Reforçam a percepção do jornalismo como um espaço que garante visibilidade aos acontecimentos e abre espaço para a apresentação de denúncias. Nesse sentido, a participação do público é apropriada pelo viés do ativismo, reproduzindo, até certo ponto, características da própria narrativa jornalística.

Um jornalismo sem jornalistas?

A questão é que as intervenções veiculadas no noticiário é apenas uma pequena parcela do que realmente é produzido pela audiência na internet. Isso levanta dois pontos importantes para quem deseja compreender melhor esse fenômeno. Primeiro, a maior parte das manifestações do público na Rede não são “jornalísticas”, no sentido de buscarem noticiar fatos relevantes e atuais. Isso explica a necessidade de os veículos de comunicação em desenvolver mecanismos de mediação e checagem das contribuições que vem de fora.

O segundo ponto importante é que as pessoas, em geral, não desejam se tornar jornalistas. Diferente do discurso de vários profissionais e acadêmicos em torno de uma suposta “invasão” do espaço jornalístico pelo profano, o que percebemos é que o conteúdo produzido pela audiência tem a intenção, na maior parte do tempo, de dar visibilidade a eventos do cotidiano e compartilhar opiniões sobre temas de interesse coletivo – e que dificilmente apareceriam na agenda midiática.

Nesse processo, o público pode ocasionalmente se apropriar de aspectos da linguagem jornalística: blogs podem se utilizar do formato noticioso para divulgar uma informação, vídeos e fotos amadores, em geral, reproduzem enquadramentos tradicionais. Isso é resultado do próprio consumo cotidiano da mídia, o que permite que pessoas “comuns” aprendam a mimetizar as principais convenções da produção midiática. O que não significa dizer que exista um desejo da audiência em querer ocupar completamente o espaço jornalístico com conteúdos produzidos fora das redações.

As pessoas nunca deixaram de produzir manifestações artísticas e culturais, expressar opiniões ou partilhar pontos de vista sobre o mundo. Das fotos de família às conversas de bar, a verdade é que a audiência tem sempre se manifestado. Jornalistas e acadêmicos só não davam atenção suficiente a esses fenômenos. Quando eles passaram a ser publicados e compartilhados on-line, tornaram visíveis demais para serem ignorados. Daí o sentimento de ameaça e a necessidade de trazer a audiência de volta. Não acredito que esse novo cenário vá mudar de forma radical a forma como fazemos e consumimos jornalismo. Mas serve, ao menos, para chamar a atenção para a existência do público.
***
[Fábio Henrique Pereira é doutor em Comunicação, professor da FAC/UnB, editor do Observatório Mídia&Política]

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A FRAQUEZA E AS DOENÇAS DE UM LÍDER PEQUENO

Por Genaldo de Melo O líder político deve ser sempre o mais forte, moral e espiritualmente, do grupo que lidera, ou pelo menos parecer ser. Fraqueza é a premissa mais incoerente que existe na natureza de quem  deseja liderar politicamente um povo. Apenas no extremismo político a fraqueza pode ser considerada coisa boa, porque um fanático não enxerga tal coisa como negativa. Apenas os apedeutas do extremismo são verdadeiros analfabetos políticos. Como compreender o ex-presidente que sempre arrotou valentia, vomitava intolerância, violência e ódio continuar com tantos seguidores demonstrando fraqueza e se vitimizando o tempo todo quando a coisa aperta para ele? Não o considero líder de nada, apenas de oligofrênicos! O homem foi condenado a ficar fechado na cadeia a mais de vinte sete anos por crimes que evidentemente cometeu, conforme o Código Penal e a Constituição Federal, e fica todo dia inventando coisas para voltar para casa para voltar a encrencar e infernizar a vida do povo br...

Temer resolveu comprar briga, vai cortar o ponto dos servidores públicos

Por Genaldo de Melo O governo de Michel Temer, o mais impopular de história republicana, que já gastou R$ 29,8 milhões em propaganda tentando se viabilizar politicamente, resolveu mostrar suas unhas e seus punhais, principalmente para os servidores públicos federais. Com o monitoramento que seus assessores fizeram da mobilização que acontecerá dia 28 de abril pelo país afora, resolveu que vai cortar o ponto de quem participar da mesma. Ou seja, com isso se prova dois pontos elementares desse governo ilegítimo. O primeiro, que o governo chegou a conclusão de que nunca teve povo ao seu lado, e nem nunca vai ter, principalmente porque está impondo uma agenda neoliberal sem debater com a sociedade. Ou seja, o povo vai prá rua contra seu governo e suas reformas, porque já compreendeu que ele quer mesmo é que o povo se arrebente, porque não gosta mesmo dele. Segundo, ele agora resolveu que como não teve votos para ser Presidente da República pode fazer o que quiser com o pov...

A cada dia aumenta o número de pré-candidatos em Feira de Santana, agora é Dilton Coutinho

Por Genaldo de Melo Mais um nome entra na fogueira das discussões e cogitações para ser candidato ao Paço Municipal em Feira de Santana, e o assunto não deixa de ser cogitado hoje em rodas de conversas, jornais, sites e blogs, além do mundo política da cidade. Dessa vez surge como candidato o radialista Dilton Coutinho, nome bastante conhecido nos meios de comunicação local. Ontem em entrevista no seu programa Acorda Cidade na rádio Sociedade de Feira FM o deputado federal Fernando Torres (PSD) disse ser pré-candidato a prefeito, mas caso Dilton resolva ser do mesmo modo, ele oferece seu partido para abrigar o comunicador como candidato: “Eu sou pré-candidato a prefeito de Feira de Santana, mas se você for Dilton Coutinho eu abro mão. O PSD está a sua disposição amigo Dilton Coutinho”, disse Fernando Torres, presidente do PSD no município. Do mesmo modo a discussão apareceu ontem na Câmara de Vereadores pela vereadora Eremita Mota (PDT e pelo vereador David Neto (PTN).