A chanceler alemã Ângela Merkel estaria disposta a apoiar abertamente Sarkozy, contra o candidato socialista François Hollande, na eleição francesa. Mas a presença de Merkel na eleição francesa pode ser, ao invés de um impulso, uma bomba de efeito retardado na campanha de Sarkozy.
Flávio Aguiar - Carta Maior
O Reno é aquele famoso rio que, na região da Alsácia, faz a fronteira entre a França e a Alemanha. Apesar da guinada à direita da Finlândia no domingo passado, elegendo depois de 30 anos de hegemonia social-democrata, um presidente da direita (Sauli Niinistö, do Partido de Coalizão Nacional, com 62% dos votos), cresce em torno do Reno o temor de que o candidato socialista, François Hollande, ganhe as próximas eleições para a presidência francesa.
Aparentemente, a vitória da direita na Finlândia ajuda a consolidar a hegemonia da dupla “Merkozy” na União Européia e na Zona do Euro.
Nessa expressão hoje presente em toda a mídia, é sintomático que o nome de Merkel preceda o de Sarkzoy, que segue a “Mamãe de Ferro” alemã um tanto a contragosto, mas segue. Por outro lado, essa hegemonia está a perigo graças à guinada mais à esquerda de Hollande, que promete voltar-se para o controle sobre o mundo das finanças e o aumento dos impostos sobre os mais ricos. Além disso, ele promete rever, pelo menos em parte, a “política de austeridade” e arrocho sobre os trabalhadores, aposentados e programas sociais, hoje vigente em quase toda a Europa, inclusive na França de Sarkozy.
Conforme matéria de Eduardo Febbro nesta mesma CM, seu programa captaria quase 30 bilhões de euros a mais em novos impostos sobre as finanças e as grandes fortunas, e traria 1% a mais nos investimentos públicos.
No caso de uma vitória de Hollande, mantendo este seu atual programa eleitoral, Merkel ficaria sob uma tensão de cisalhamento. À direita, teria a firme oposição de David Cameron, que se recusa a colocar a City londrina sob a supervisão dos tecnocratas de Bruxelas (sede da Comissão Européia) e particularmente de Frankfurt (sede do Banco Central Europeu). À esquerda, teria a oposição de Hollande. Ao norte, a posição finlandesa, embora mais à direita, também não traz total tranqüilidade para a dupla, pois no parlamento de Helsinque existe forte e tradicional ceticismo quanto ao euro e ajuda a países em dificuldade, como é o caso, por exemplo, dos partidários do “Perussuomalaset”, ou Partido dos Verdadeiros Finlandeses, que tem 19% das cadeiras. Finalmente, ao sul teria a eterna dor de cabeça grega, cujo governo praticamente “nomeado” por Bruxelas, Frankfurt, Berlim e Paris ainda encontra dificuldades para fechar um acordo com a banca privada quanto aos cortes em sua dívida soberana.
Na França propriamente dita a situação é de “luz vermelha” para Sarkozy, que promete abandonar a política se for derrotado em 22 de abril (1º turno) e 6 de maio (2º turno). Pesquisas do fim de semana dão, no 1º round, 34% para Hollande e 25,5% para Sarkozy. No segundo round, Hollande teria 57% dos votos contra 43% de Sarkozy. 72% dos eleitores de Hollande se dizem totalmente decididos, contra 76% de Sarkozy.
Ainda resta uma margem de dúvida, proveniente da votação dos outros candidatos: Marine Le Pen, da extrema-direita, teria 15% dos votos; François Bayon, tido como de centro-direita, 12%; e Jean Luc Mélencher, da Front Gauche, 7,5%, além de outros com votaçòes em torno de 1% cada um. Quer dizer: para ter alguma chance de vitória, Sarkozy teria praticamente de arrebanhar todos os votos de Le Pen e de Bayon, além de garantir que todos os seus eleitores potenciais permaneçam fiéis a seu anunciado voto, e não apenas os atuais 76%.
Esse quadro periclitante levou a chanceler Ângela Merkel a um gesto temerário. Segundo o jornal sensacionalista Bild Zeitung, ou a revista mais vetusta Der Spiegel, ela anunciou que irá apoiar abertamente Sarkozy na eleição francesa, considerando-o “o homem certo para o Elisée”, referência à residência presidencial em Paris, também tradicional sede da reunião do Conselho de Ministros. Der Spiegel considerou a posição de Merkel uma “afronta” ao candidato socialista, o que seria um mau início de relacionamento entre ambos, caso ele vença. O gesto é tão ousado que provocou reparos até do Ministro de Relações Exteriores da Alemanha e correligionário de coalizão de Merkel, Guido Westerwelle.
Resta saber, também, qual será o efeito dessa interferência da chanceler alemã na eleição francesa. Se é verdade que ela tem aparecido como a grande líder das “políticas de austeridade”, é também verdade que sua posição tem provocado resistências acentuadas diante do que muitos consideram uma nova política imperial por parte de Berlim.
Ou seja, a presença de Merkel na eleição francesa pode ser, ao invés de um impulso, uma bomba de efeito retardado na campanha de Sarkozy.
Talvez seu epitáfio. A ver.
Aparentemente, a vitória da direita na Finlândia ajuda a consolidar a hegemonia da dupla “Merkozy” na União Européia e na Zona do Euro.
Nessa expressão hoje presente em toda a mídia, é sintomático que o nome de Merkel preceda o de Sarkzoy, que segue a “Mamãe de Ferro” alemã um tanto a contragosto, mas segue. Por outro lado, essa hegemonia está a perigo graças à guinada mais à esquerda de Hollande, que promete voltar-se para o controle sobre o mundo das finanças e o aumento dos impostos sobre os mais ricos. Além disso, ele promete rever, pelo menos em parte, a “política de austeridade” e arrocho sobre os trabalhadores, aposentados e programas sociais, hoje vigente em quase toda a Europa, inclusive na França de Sarkozy.
Conforme matéria de Eduardo Febbro nesta mesma CM, seu programa captaria quase 30 bilhões de euros a mais em novos impostos sobre as finanças e as grandes fortunas, e traria 1% a mais nos investimentos públicos.
No caso de uma vitória de Hollande, mantendo este seu atual programa eleitoral, Merkel ficaria sob uma tensão de cisalhamento. À direita, teria a firme oposição de David Cameron, que se recusa a colocar a City londrina sob a supervisão dos tecnocratas de Bruxelas (sede da Comissão Européia) e particularmente de Frankfurt (sede do Banco Central Europeu). À esquerda, teria a oposição de Hollande. Ao norte, a posição finlandesa, embora mais à direita, também não traz total tranqüilidade para a dupla, pois no parlamento de Helsinque existe forte e tradicional ceticismo quanto ao euro e ajuda a países em dificuldade, como é o caso, por exemplo, dos partidários do “Perussuomalaset”, ou Partido dos Verdadeiros Finlandeses, que tem 19% das cadeiras. Finalmente, ao sul teria a eterna dor de cabeça grega, cujo governo praticamente “nomeado” por Bruxelas, Frankfurt, Berlim e Paris ainda encontra dificuldades para fechar um acordo com a banca privada quanto aos cortes em sua dívida soberana.
Na França propriamente dita a situação é de “luz vermelha” para Sarkozy, que promete abandonar a política se for derrotado em 22 de abril (1º turno) e 6 de maio (2º turno). Pesquisas do fim de semana dão, no 1º round, 34% para Hollande e 25,5% para Sarkozy. No segundo round, Hollande teria 57% dos votos contra 43% de Sarkozy. 72% dos eleitores de Hollande se dizem totalmente decididos, contra 76% de Sarkozy.
Ainda resta uma margem de dúvida, proveniente da votação dos outros candidatos: Marine Le Pen, da extrema-direita, teria 15% dos votos; François Bayon, tido como de centro-direita, 12%; e Jean Luc Mélencher, da Front Gauche, 7,5%, além de outros com votaçòes em torno de 1% cada um. Quer dizer: para ter alguma chance de vitória, Sarkozy teria praticamente de arrebanhar todos os votos de Le Pen e de Bayon, além de garantir que todos os seus eleitores potenciais permaneçam fiéis a seu anunciado voto, e não apenas os atuais 76%.
Esse quadro periclitante levou a chanceler Ângela Merkel a um gesto temerário. Segundo o jornal sensacionalista Bild Zeitung, ou a revista mais vetusta Der Spiegel, ela anunciou que irá apoiar abertamente Sarkozy na eleição francesa, considerando-o “o homem certo para o Elisée”, referência à residência presidencial em Paris, também tradicional sede da reunião do Conselho de Ministros. Der Spiegel considerou a posição de Merkel uma “afronta” ao candidato socialista, o que seria um mau início de relacionamento entre ambos, caso ele vença. O gesto é tão ousado que provocou reparos até do Ministro de Relações Exteriores da Alemanha e correligionário de coalizão de Merkel, Guido Westerwelle.
Resta saber, também, qual será o efeito dessa interferência da chanceler alemã na eleição francesa. Se é verdade que ela tem aparecido como a grande líder das “políticas de austeridade”, é também verdade que sua posição tem provocado resistências acentuadas diante do que muitos consideram uma nova política imperial por parte de Berlim.
Ou seja, a presença de Merkel na eleição francesa pode ser, ao invés de um impulso, uma bomba de efeito retardado na campanha de Sarkozy.
Talvez seu epitáfio. A ver.
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.
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