Caso o PT consiga eleger no segundo turno seus candidatos em capitais importantes como São Paulo, Salvador e Fortaleza, consolidará uma força eleitoral competitiva para a eleição presidencial de 2014
Editorial ed. 503 - Brasil de Fato
A luta eleitoral é uma das formas de manifestação da luta de classes. Nesse sentido, devemos fazer um esforço de análise para entendermos o recado das urnas e suas implicações na luta política. As eleições municipais de 2012 confirmaram o que diversas vezes este editorial alertou: o neodesenvolvimentismo em curso não formatou uma base social de massas com uma ideologia de esquerda, pronta para se mobilizar e defender as conquistas dos governos Lula e Dilma.
É fato que nos últimos anos, setores da classe trabalhadora ampliaram sua capacidade de consumo e tiveram conquistas no campo das políticas de assistência social. No entanto, como explicar o avanço do conservador Celso Russomanno neste eleitorado que se beneficiou com o aumento da renda e ampliou sua capacidade de consumo? É uma especificidade de São Paulo? Não. Haddad reagiu na reta final e conseguiu maioria nesse eleitorado, mas isso só confirmou a instabilidade e fluidez política dessa camada da classe trabalhadora. O significado desse fenômeno merece ser analisado com bastante atenção, pois ele poderá ter um peso determinante em possíveis correlações de forças que surgirem da luta política na sociedade.
Podemos fazer alguns apontamentos que ajudam a explicar a natureza fluida desse setor da classe trabalhadora e sua abertura para cultivar certa infidelidade eleitoral ao PT. O neodesenvolvimentismo é uma alternativa capitalista pautada num esforço de conciliação de classes. Não é uma alternativa de natureza popular e não dissemina valores e posições históricas da esquerda, como a defesa da soberania nacional e a necessidade de efetivarmos mudanças estruturais na sociedade como a reforma agrária, tributária, urbana e outras. Portanto, o neodesenvolvimentismo não educa politicamente as massas para um projeto pautado nesse conjunto de reformas de natureza nacional, democrática e popular que dão conteúdo à esquerda.
Apesar da fluidez desse setor da classe trabalhadora e de seus imprevisíveis alinhamentos políticos, o PT vem disputando com êxito essa camada do eleitorado. O crescimento do PT foi expressivo nessas eleições. Caso o PT consiga eleger no segundo turno seus candidatos em capitais importantes como São Paulo, Salvador e Fortaleza, consolidará uma força eleitoral competitiva para a eleição presidencial de 2014. Consolida uma força eleitoral, mas não consolida e nem forma uma força social de mobilização. Nisso reside a fragilidade desse projeto neodesenvolvimentista.
Mesmo com o crescimento da força eleitoral do PT, é certo que a correlação dentro da coalizão de partidos que dão sustentação ao governo Dilma não será mais a mesma. É necessário analisar se o crescimento do PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, acumulou ou não forças sufi cientes para um projeto próprio em 2014. Uma aliança do PSB com Aécio Neves ou Marina Silva seria bem preocupante para os planos do PT. Ao que tudo indica, o PSB e, mesmo o PSD de Kassab, canalizaram a perda de referência do PSDB e do DEM junto ao eleitorado brasileiro. Isso pode dar origem uma força eleitoral de centro.
Para os lutadores do povo que batalham por transformações estruturais, o neodesenvolvimentismo deseduca as massas e abre espaço para propostas conservadoras. Além disso, possibilita o avanço de uma cultura política destituída do debate de projetos políticos, favorecendo o personalismo na vida política brasileira em detrimento da construção coletiva. Esta situação contribui para explicar parte da crise da esquerda brasileira. Devemos lembrar que essa jovem classe trabalhadora é filha legítima das contradições do neodesenvolvimentismo e pode contribuir para a mudança da correlação de forças na sociedade numa determinada conjuntura. Seu nível de consciência e suas posições políticas não estão cristalizados e são determinados por sua experiência concreta.
Mais cedo ou mais tarde, essa jovem classe trabalhadora pode prestar contas com o neodesenvolvimentismo e fazer uma inflexão para a direita através da retomada do projeto tipicamente neoliberal que, nesse momento histórico, está desmoralizado. Também pode ocorrer uma inflexão para a esquerda, caso as forças populares consigam ter capacidade de mobilização para apresentar um projeto popular para o Brasil como alternativa concreta para a sociedade brasileira e que seu conteúdo seja constituído pelo desenvolvimento nacional soberano e por reformas estruturais na sociedade.
Portanto, temos que identificar o possível potencial existente nessa jovem classe trabalhadora para contribuir na formação de uma força social para transformar o Brasil numa sociedade e justa e democrática. Combinar luta social com luta institucional faz parte dessa longa caminhada.
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