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Nobel avacalhado

Com o tempo, as premiações têm se mostrado cada vez mais afinadas com as prioridades da elite financeira internacional
 
Igor Fuser
O milionário Alfred Nobel instituiu, há mais de um século, um prêmio anual para homenagear quem tenha se destacado em promover a “fraternidade entre as nações”. Na lista dos premiados com o Nobel da Paz, convivem personagens que, de fato, dedicaram a vida às causas humanitárias com outras que contrariam frontalmente o ideal pacifista. No primeiro caso se incluem o advogado argentino Adolfo Pérez Esquivel (1980), que despertou a opinião pública mundial para o extermínio de opositores cometido pelo regime militar no seu país, o bispo sul-africano Desmond Tutu (1984), um líder da luta contra o apartheid, e a ativista guatemalteca Rigoberta Menchú (1992), incansável defensora dos indígenas. Do lado oposto, o Comitê do Nobel manchou a premiação ao atribuí-la a criminosos de guerra, como o israelense Menachem Begin (1979) e o estadunidense Henry Kissinger (1973), responsável, entre outras atrocidades, pelo bombardeio de populações civis no Vietnã e pelo envolvimento dos EUA no golpe militar do Chile.
Com o tempo, as premiações têm se mostrado cada vez mais afinadas com as prioridades da elite financeira internacional e da política externa dos EUA. É o que explica a escolha de Al Gore, que depois de exercer a vice-presidência dos EUA se tornou o grande arauto do “capitalismo verde” (2007), culminando com o Nobel concedido em 2009 a Barack Obama, ainda em seu início de governo. Eis que, em 2012, o uso instrumental do Nobel atinge o ápice do cinismo, com a atribuição do prêmio à União Europeia (UE). Por que se decidiu prestar essa homenagem justo agora, quando a UE se sobressai justamente pelas suas iniciativas truculentas?
No ano passado, as potências europeias provocaram a morte de milhares de pessoas com a intervenção militar na Líbia. No plano econômico, a UE tem se empenhado em anular a democracia nos países endividados do sul do continente. É que o ocorreu na Grécia, forçada a abdicar de sua soberania em favor de uma “troika” de interventores (UE, Banco Central Europeu e FMI), e pode servir de modelo para Portugal, Espanha e Itália. Em todos esses casos, a agenda da UE tem como foco a redução dos salários e o corte de benefícios sociais. Aos que protestam, a resposta é a repressão, cada vez mais violenta. Na realidade, se a União Europeia merecia algum prêmio, seria o Nobel da Guerra.

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