Pular para o conteúdo principal

Albano Nunes: Irã


Ainda nem os EUA nem a Alemanha, potências imperialistas que se arrogam o direito de dar lições ao mundo, existiam como nação e como país, e já a Pérsia era há milênios uma civilização avançada, com uma identidade própria e notáveis realizações no campo da ciência, da arte e da cultura.

Por Albano Nunes*, no jornal Avante!


O mesmo sucedeu com o Iraque no quadro do mundo árabe ou com a China, por exemplo. Trata-se de realidades que mostram como é irregular e acidentado o processo de desenvolvimento de nações e civilizações. O próprio exemplo de Portugal ilustra bem como aquilo que num momento histórico é avançado e progressista ("Descobrimentos") se pode tornar fator de atraso e submissão.

Tudo isto deveria aconselhar menos arrogância aos países mais desenvolvidos e proibir-lhes quaisquer manifestações de superioridade de cariz racista. Esta não é porém uma questão da esfera do pensamento racional mas da natureza do sistema sócio-econômico. Os EUA e a Alemanha são potências imperialistas que só podem existir intensificando a exploração dos trabalhadores, sugando as riquezas e os frutos do trabalho dos povos de todo o mundo, defendendo com unhas e dentes uma supremacia que vêem escapar-lhe (os EUA, sobretudo) ou procurando colocar o seu poder militar e influência geopolítica ao nível do seu poder econômico (a Alemanha de quem se diz que é um “gigante econômico, mas um anão político”). É isto que essencialmente determina a perigosa escalada agressiva no Médio Oriente e Ásia Central, com os EUA e a União Europeia rivalizando e coordenando a sua ação para dominar os seus povos e recursos, e alterar o quadro geoestratégico em direção ao Extremo-Oriente.

Quanto ao Irão, ao mesmo tempo que expressamos a nossa solidariedade com a luta do povo iraniano pelos seus direitos e em defesa da soberania do seu país, sem esquecer o partido comunista, o partido Tudhé, cuja legalização é um imperativo da própria resistência ao imperialismo, devemos aproveitar para conhecer melhor a sua história. Ficaremos a um tempo fascinados pela sua riqueza e revoltados perante a cortina de silêncio e mentiras com que os escribas do sistema procuram justificar os crimes do imperialismo. E não é preciso ir além de meados do século passado quando, no contexto de grandes lutas populares Mossadegh nacionaliza em 1951 a Anglo-Persian Oil Company, propriedade da Grã-Bretanha, que de imediato se lança, em aliança com os EUA, numa escalada de conspiração para impor no Irão um governo títere.

O que se se segue é digno de antologia. Golpe da CIA em 1953. Afastamento e prisão de Mossadegh. O Xá, Reza Pahlavi, impõe uma feroz ditadura e torna-se um instrumento fundamental dos EUA na sua estratégia de “contenção do comunismo” com a instalação de bases militares e estações de espionagem eletrônica contra a URSS ao longo de uma fronteira de 1500 quilômetros. Segue-se mais de vinte e cinco anos de um regime terrorista em que a polícia secreta do Xá, a SAVAK, criada com a ajuda da Mossad, se torna célebre pela sua crueldade. Milhares de opositores são assassinados. Completamente isolada a ditadura acaba por ser derrubada em 1979 por uma impressionante insurreição popular, em que estão os comunistas, mas estão também os ayatolahs que, após um período de transformações democráticas, impõem o seu próprio regime islâmico fundamentalista. A guerra (1980-1988) entre o Iraque e o Irão instigada pelos EUA acabará por pôr fim a muito do que ainda restava dessa revolução.

Mas a ingerência externa não acaba com as centenas de milhares de mortos que esta guerra provocou. O imperialismo não suporta quem se lhe não submeta inteiramente.

* Albano Nunes é membro da direção do Partido Comunista Português

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A FRAQUEZA E AS DOENÇAS DE UM LÍDER PEQUENO

Por Genaldo de Melo O líder político deve ser sempre o mais forte, moral e espiritualmente, do grupo que lidera, ou pelo menos parecer ser. Fraqueza é a premissa mais incoerente que existe na natureza de quem  deseja liderar politicamente um povo. Apenas no extremismo político a fraqueza pode ser considerada coisa boa, porque um fanático não enxerga tal coisa como negativa. Apenas os apedeutas do extremismo são verdadeiros analfabetos políticos. Como compreender o ex-presidente que sempre arrotou valentia, vomitava intolerância, violência e ódio continuar com tantos seguidores demonstrando fraqueza e se vitimizando o tempo todo quando a coisa aperta para ele? Não o considero líder de nada, apenas de oligofrênicos! O homem foi condenado a ficar fechado na cadeia a mais de vinte sete anos por crimes que evidentemente cometeu, conforme o Código Penal e a Constituição Federal, e fica todo dia inventando coisas para voltar para casa para voltar a encrencar e infernizar a vida do povo br...

Temer resolveu comprar briga, vai cortar o ponto dos servidores públicos

Por Genaldo de Melo O governo de Michel Temer, o mais impopular de história republicana, que já gastou R$ 29,8 milhões em propaganda tentando se viabilizar politicamente, resolveu mostrar suas unhas e seus punhais, principalmente para os servidores públicos federais. Com o monitoramento que seus assessores fizeram da mobilização que acontecerá dia 28 de abril pelo país afora, resolveu que vai cortar o ponto de quem participar da mesma. Ou seja, com isso se prova dois pontos elementares desse governo ilegítimo. O primeiro, que o governo chegou a conclusão de que nunca teve povo ao seu lado, e nem nunca vai ter, principalmente porque está impondo uma agenda neoliberal sem debater com a sociedade. Ou seja, o povo vai prá rua contra seu governo e suas reformas, porque já compreendeu que ele quer mesmo é que o povo se arrebente, porque não gosta mesmo dele. Segundo, ele agora resolveu que como não teve votos para ser Presidente da República pode fazer o que quiser com o pov...

A cada dia aumenta o número de pré-candidatos em Feira de Santana, agora é Dilton Coutinho

Por Genaldo de Melo Mais um nome entra na fogueira das discussões e cogitações para ser candidato ao Paço Municipal em Feira de Santana, e o assunto não deixa de ser cogitado hoje em rodas de conversas, jornais, sites e blogs, além do mundo política da cidade. Dessa vez surge como candidato o radialista Dilton Coutinho, nome bastante conhecido nos meios de comunicação local. Ontem em entrevista no seu programa Acorda Cidade na rádio Sociedade de Feira FM o deputado federal Fernando Torres (PSD) disse ser pré-candidato a prefeito, mas caso Dilton resolva ser do mesmo modo, ele oferece seu partido para abrigar o comunicador como candidato: “Eu sou pré-candidato a prefeito de Feira de Santana, mas se você for Dilton Coutinho eu abro mão. O PSD está a sua disposição amigo Dilton Coutinho”, disse Fernando Torres, presidente do PSD no município. Do mesmo modo a discussão apareceu ontem na Câmara de Vereadores pela vereadora Eremita Mota (PDT e pelo vereador David Neto (PTN).