Está claro que os inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a comissão
Editorial Ed. 471 - Brasil de Fato
A
mais recente movimentação de setores militares da reserva objetivando
impedir o conhecimento público e a investigação de fatos ocorridos
principalmente entre 1964 e 1988 expressa o que há de mais atrasado e
retrógrado. É mais um ataque, dos vários que estão por vir, à Comissão
Nacional da Verdade. O pacote reacionário que se apresentou no nefasto
manifesto “Alerta à nação – eles que venham por aqui não passarão”,
além buscar neutralizar ou acabar com a Comissão da Verdade, também
tenta deslegitimar instituições democráticas e pessoas que se dedicam à
luta pelos direitos humanos.
Toda sociedade humana tem
direito à memória. Portanto, esse é um ataque à sociedade brasileira e
ao seu direito de registrar sua própria história. O tal manifesto com
seu tom ameaçador, intimidador e golpista é típico dos piores inimigos
da humanidade. Esses senhores se acham no direito de sufocar a memória
histórica do povo brasileiro que é carregada de heroísmo e lutas
sociais.
Toda sociedade humana tem direito à verdade. Os
signatários desse manifesto são justamente aqueles que cometeram
perseguições, torturas e assassinatos durante a ditadura civil-militar,
entre o período de 1964 e 1988. São os mesmos que não querem permitir
que esses crimes sejam de conhecimento público, investigados e punidos. A
sociedade e as famílias dos brasileiros e brasileiras que foram vítimas
da repressão dos militares têm direito à verdade. Ou seja, quem
ordenava os assassinatos e perseguições? Quem eram os torturadores? Onde
estão os corpos dos desaparecidos políticos?
Mesmo tendo
sido um manifesto de militares da reserva, ele expressa o caráter
reacionário, conservador e autoritário da classe dominante brasileira.
Os ataques dos milicos não pouparam nem mesmo o ministro da Defesa Celso
Amorim que prontamente desvinculou o manifesto de qualquer iniciativa
das forças armadas brasileiras. Os milicos não suportam e não aceitam o
compromisso com a verdade e com os direitos humanos externado pela
ministra da Secretaria de Direitos Humanos Maria do Rosário e pela
ministra da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres Eleonora
Menicucci.
Sabemos que a reação de setores militares e
civis incidiu no processo de formulação da Comissão Nacional da Verdade
para que no final das contas predomine a impunidade. Está claro que os
inimigos do povo se utilizarão de todos os métodos para inviabilizar a
comissão. Isso significa que o aprofundamento das investigações e
principalmente o elemento da justiça só ocorrerá se a sociedade se
mobilizar.
Toda sociedade humana tem direito à justiça.
Algumas das perguntas que fazemos relacionadas aos crimes da ditadura
militar já têm respostas, outras estão em documentos sob rígido controle
das forças armadas. Saber a verdade dos fatos desse período nos
proporciona as bases para lutarmos por justiça. É necessário saber a
verdade, mas também é necessário punir os criminosos. Nesse sentido,
nunca é demais lembrar que países como Argentina e outros da América do
Sul têm avançado bastante no direito à verdade e à justiça, investigando
e punindo os crimes dos militares. A Organização dos Estados Americanos
(OEA) não se cansa nos seus relatórios de ressaltar e criticar o atraso
brasileiro na prestação de contas com os crimes desse período
histórico.
Por isso é fundamental ficarmos atentos às
movimentações públicas e subterrâneas desses senhores que não têm nenhum
compromisso com o povo brasileiro. Faz-se necessário nesse momento nos
organizarmos para defender o direito à memória, à verdade e à justiça.
Ou seja, temos que enraizar e popularizar esse desafio da luta pela
verdade e justiça junto ao povo brasileiro. Somente assim teremos
capacidade de isolar os setores reacionários da sociedade brasileira e
abrir espaço para que a verdade se encontre com a justiça. Isso
significa que devemos sair na defesa da Comissão Nacional da Verdade e
nos mobilizarmos para que ela tenha plenas condições para realizar seus
trabalhos. Não podemos permitir que o impasse tome conta da Comissão da
Verdade.
Mesmo com todos os esforços dos setores
conservadores para não sabermos a verdade dos fatos e para que não haja
punição aos crimes cometidos pelos militares, existe um elemento sobre o
qual a classe dominante brasileira não tem controle: a memória coletiva
do povo brasileiro. No conteúdo da memória coletiva do povo brasileiro
encontramos seu protagonismo em diversas lutas sociais, seu compromisso
com a verdade e a justiça e as bases para a construção de um Projeto
Popular para o Brasil. A memória coletiva do povo brasileiro mais cedo
ou mais tarde despertará.
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