Por Altamiro Borges
Após namorar com a petista Dilma Rousseff e casar com o tucano José
Serra, o prefeito de São Paulo e líder do PSD desembestou e resolveu
virar incendiário. Segundo Josias de Souza, da Folha, “em seus diálogos
privados, Gilberto Kassab informa que, se for eleito para a prefeitura, o
tucano José Serra vai romper com o PSDB e abandonar os quadros da
legenda”. A especulação incendiou o ninho tucano.
O clima de desconfiança no PSDB já era pesado. Isolado e desgastado, mas
sem perder a pose, Serra fez o tucanato de “palhaço”. Depois de muito
enrolar, disse que toparia a “missão” de disputar a prefeitura e
bagunçou a “palhaçada” das prévias partidárias. Mesmo assim, ele deixou
todos de pulga na orelha ao explicitar que o seu sonho presidencial está
apenas “adormecido”. Aécio Neves, o inepto rival, deve ter perdido o
sono. Agora, a sua cria ainda insinua que ele poderá deixar o PSDB caso
seja eleito.
Vale conferir alguns trechos da bombástica matéria de Josias de Souza, que nunca dá ponto sem nó:
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Na versão difundida por Kassab nos subterrâneos, Serra pretende
articular a formação de um novo partido. A base dessa legenda seria o
PSD. Ao partido presidido por Kassab seriam incorporadas outras
agremiações.
Nesses diálogos travados a portas fechadas, Kassab repete algo que
disse sob holofotes. Segundo ele, Serra não cogita disputar a
Presidência da República em 2014. Planeja dedicar-se à prefeitura.
Em conversa com o blog, um dos ouvidos que escutaram Kassab juntou as
duas pontas da argumentação e concluiu: não faz nexo. Indaga-se: por
que Serra iria à nova legenda se não pretendesse ressuscitar o projeto
presidencial que o PSDB lhe sonega?
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Duas visões distintas do Brasil
Na primeira entrevista que deu como pré-candidato, Serra deixou patente
que a sua maior preocupação é com a questão nacional. Como ele mesmo já
confidenciou, a prefeitura paulistana é um “enterro” – ele nunca se
sentiu motivado para discutir os problemas da cidade. Ele só aceitou
ingressar na disputa para “deter o avanço do PT como força hegemônica na
política nacional”.
Na entrevista, Serra definiu a eleição municipal como um embate entre
“duas visões distintas de Brasil”. Ele sabe que uma derrota na principal
cidade do Brasil terá impacto negativo na disputa pelo governo
estadual, controlado pelos tucanos há quase 20 anos, e na sua obsessão
de se candidatar pela terceira vez à presidência da República. O bloco
neoliberal-conservador ficaria ainda mais fragilizado.
A sua aposta é de alto risco. Mas ele não descarta nenhuma hipótese –
pelo jeito, nem mesmo a de deixar o PSDB, como revelou seu fiel amigo.
Neste ponto é preciso reconhecer a coerência de José Serra. Ele sabe que
o que está em curso é o embate entre “duas visões distintas de Brasil” -
uma neoliberal e outra, ainda em construção, pós-neoliberal. O
pragmatismo exacerbado costuma ofuscar este referencial.

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